quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

my (re)view: Suspiria


Suspiria, de Luca Guadagnino

Os remakes dos grandes clássicos costumam ter sempre um enorme ponto de interrogação à sua frente. Apesar da direcção deste novo Suspiria estar nas mãos do super competente Luca Guadagnino, o peso da obra de 1977 de Dario Argento sentia-se mais, visto estarmos perante um dos melhores filmes do género do horror de sempre. Voltamos à conceituada e macabra escola de dança de Berlim onde se escondem acontecimentos estranhos associados a boatos de bruxaria. O misterioso desconforto perante o desconhecido e a forma como a luz, as cores, a cinematografia e o ambiente oculto se apresentavam fazem dele uma experiência daquelas que valem a pena. Perante algo tão bom, tudo o que fosse apresentado imaginava eu que fosse pouco, mas como todo o bom cineasta que faz magia Guadagnino não só fez um trabalho excepcional como fez transcender toda a mística da obra original ainda que abordando esta de maneira diferente. Aqui, aquilo que é o desfecho do filme original, é nos logo revelado e ao invés de passarmos o filme todo a pensar sobre com o que estamos a lidar afinal, as revelações e o medo vão-se instalando nos personagens e o mistério do inexplicável tomam conta da história e nós que até pensávamos que sabíamos ao que íamos, ficamos a processar todos os novos detalhes e segredos que ficam no ar ou não fosse o tema propicio a isso. Tilda Swinton musa de Guadagnino é perfeita no que dá a toda a magia incompreensível da história e Dakota Johnson é surpreendentemente assustadora neste papel em que dificilmente poderíamos imaginar vê-la. Enquanto a obra de Argento é bastante mais surreal, Guadagnino acaba por dar mais significado ao argumento inserindo-o num contexto histórico, nomeadamente mostrando a Alemanha dividida pós nazismo e a mulher com um papel em ascensão a nível social. Para além de um remake, o novo Suspiria dá-nos irreverência, talvez não a mesma irreverência que Argento fez sentir no seu projecto, mas definitivamente uma abordagem corajosa perante um filme de culto adorado por muitos. O mais importante de tudo é sentir que a cada obra de Luca Guadagnino, se sente a sua paixão pelo que faz.

Classificação final: 4,5 estrelas em 5.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

my (re)view: Green Book: O Guia (Green Book)


Green Book, de Peter Farrelly

Viggo Mortensen e Mahersala Ali já demonstraram anteriormente o quão são bons naquilo que fazem e em Green Book isso não muda. Os personagens são daquele tipo que cria empatia com o publico, assim como a narrativa está disposta precisamente para puxar para o sentimento e supostamente se conecta connosco. Talvez esse seja mesmo o seu problema, pois acaba por ser demasiado básico e algo que já vimos anteriormente. O filme acompanha a viagem do motorista Tony Vallelonga e do pianista Don Shirley pelo sul dos Estados Unidos ainda durante o tempo em que os negros não podiam frequentar os mesmos espaços que os brancos e mostra a relação que foram criando ao longo dessa viagem. Confesso que não compreendo todo o buzz em torno deste filme. Mais uma história verídica, sobre uma amizade improvável numa época onde poucos ousavam contrariar a sociedade. Inovador? Não. É apenas um filme mediano, doce, divertido, com boas performances, mas com algumas falhas no desenvolvimento de personagens onde a maior parte das pessoas nem vai querer saber. A ideia é a cima de tudo mexer com as emoções de quem vê. Há coisas piores, mas incluir este filme como um dos melhores do ano é sobrevaloriza-lo. O que é certo é que a critica em geral também está a adorar e a mensagem pode ser significativa sim, mas houve melhor cinema durante o ano. É mais um caso onde os actores fazem o filme e pouco mais, em especial Viggo Mortensen que tem aqui mais uma grande performance na carreira.

Classificação final: 3 estrelas em 5.

domingo, 28 de outubro de 2018

my (re)view: O Primeiro Homem na Lua (First Man) . 2018


Com Whiplash (2014) Damien Chazelle dava-se a conhecer ao mundo, com La La Land (2016) tornou-se no realizador mais jovem a ganhar um oscar nessa mesma categoria, com First Man foi posto de parte todo o seu conhecido arrojo, num filme que joga imenso pelo seguro numa tentativa de transformar este acontecimento de grande controvérsia ao longo de todos estes anos, em algo demasiado metafórico, ao mesmo tempo estranhamente simples e até por vezes aborrecido. A nível técnico, Chazelle continua a manter-se fiel à belíssima forma com que nos apresenta os seus filmes, mas é no que toca ao argumento que as coisas correm para o torto. Focado a cem por cento na figura de Neil Armstrong (Ryan Gosling) é estranho quando tudo parece distante sem grande relevância emocional ou afectiva, tornando-se muito difícil a empatia com os personagens, especialmente quando Ryan Gosling que até faz por isso, pouco consegue. Curiosamente Claire Foy, interpretando a mulher de Armstrong consegue ser muito mais envolvente que este. Talvez o medo que suscitar algum tipo de polémicas tenha sido mais elevado do que a vontade de aprofundar algumas questões, e enumeras vezes em que chegamos quase a esse ponto nada de especial acontece e lá voltamos nos para mais momentos de introspecção ao lado de Armstrong, onde mais parece que deixamos de ver um filme de Chazelle e passamos imediatamente para um estilo Malick. A banda sonora é competente e quando enquadrada com a excelente cinematografia, melhor. É de destacar também aquele que para mim é o melhor aspecto do filme, e talvez o único que o torna diferente de muitos outros com histórias de exploração espacial, pois quando dentro de qualquer um dos foguetes espaciais a sensação claustrofóbica, de tensão e medo do desconhecido conseguem transparecer para o lado de cá do ecrã. Um passo pequeno para Damien Chazelle, e ainda menos grandioso para esta história na Lua.

Classificação final: 3 estrelas em 5.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

my (re)view: Assim Nasce Uma Estrela (A Star is Born) . 2018


Desconhecendo os anteriores remakes desta história, parti à descoberta de A Star is Born como sendo apenas um daqueles que seria os filmes da golden season deste ano. Sem querer saber muitos pormenores sobre a história é absolutamente impossível não ficar surpreendido com aquilo que nos deparamos ao longo do filme. Bradley Cooper estreia-se aqui na realização, escrevendo e protagonizando esta história ao lado do talentoso ser que é Lady Gaga. A carga emocional que o filme carrega, vai muito mais para além daquilo que é a industria musical mostrando vulnerabilidades de pessoas comuns, da sua vida pessoal e dos seus desafios enquanto figuras no mundo da música. Se por um lado Jackson Maine (Bradley Cooper) adquiriu um estatuto, Ally (Lady Gaga) procura essa oportunidade. Quando Maine descobre Ally e os dois se apaixonam a decadência da carreira de um começa enquanto a ascensão do outro inicia. Entre a paixão de um pelo outro e a paixão pela música e pelo que ela significa para os dois, os problemas com o álcool e as drogas de Maine começam a afectar não só a sua carreira, mas também a de Ally. Para além da grande interpretação de Bradley Cooper, o argumento e a realização são impecáveis, mencionando a tremenda química existente entre ele e Lady Gaga que transborda para lá do ecrã. Gaga é uma rainha, excelente cantora e compositora dá-nos uma poderosa interpretação, emocional e muito intima, conquistando tudo aquilo em que toca. Sam Elliot também ele extraordinário com papel de destaque como manager e irmão de Jackson Maine. Sendo este um drama sobre música, não se poderia pedir menos que uma banda sonora sublime com canções que nos acompanham muito depois da visualização do filme. Arrisco-me a dizer que facilmente será lembrado como um dos romances dos últimos tempos. Como na vida real, nem tudo é um mar de rosas e é bom que existam filmes assim.

Classificação final: 4,5 estrelas em 5.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

my (re)view: Venom . 2018


Sem tom bem definido, não conseguimos medir a força de algumas intenções deste esperado stand-alone da Marvel, este com demasiados gaps na história derivado à pobreza do seu argumento e ao desleixo de diálogos. Desde efeitos visuais totalmente ancestrais, má edição de imagem e fraco desenvolvimento de personagens, Venom desperdiça também o excelente elenco, até dá dó. Acho que queria algo mais dark ao invés de cómico, mas já que estaríamos na base da comédia, que fosse menos patético e mais substancial. Talvez tenho sido esta tentativa de transformar Venom em algo semelhante a Deadpool ou Guardians of the Galaxy mas sem que nem um terço do que se passa, consiga chegar aos calcanhares de como a comédia os torna diferentes dentro do universo Marvel. Tom Hardy merecia bem melhor que isto. Felizmente e em grande parte graças a ele dá para tolerar e ainda o conseguimos ver brilhar em algumas cenas em que luta contra os seus novos impulsos. É isso que escapa a Venom, pois contrariando o espírito do anti-herói que lhe dá nome, faltou a coragem de arriscar.

Classificação final: 2 estrelas em 5.

sábado, 6 de outubro de 2018

my (re)view: Pesquisa Obsessiva (Searching) . 2018


Searching saiu com grande buzz do Festival de Sundance desde ano como sendo inovador, conquistando grandes elogios por parte da audiência. O conceito não seria o mais apelativo para mim, mas assim que constatei a forma como o formato está tão bem aplicado percebi que para além de não poder ser mais actual nesta era em que vivemos, também consegue através das maravilhas mas também das artimanhas das novas tecnologias e da internet obter um resultado final quase perfeito criando um ambiente super intrigante e totalmente original, capaz de construir uma história sólida e de agarrar ao ecrã com momentos cheios de suspense que nos deixam à beira de um ataque de nervos. John Cho é um pai desesperado que tenta encontrar a filha desaparecida à cinco dias, recorrendo apenas a explorar as suas redes sociais, entrando em contacto com amigos e conhecidos, conhecendo melhor a rotina da filha através das ferramentas com que todos já não sabemos viver sem. Muito do sucesso desde filme vive da interpretação de Cho, pois é ele que vemos maioritariamente durante todo o filme ora através de ecrã de computadores ou de telemóveis, usando métodos diferentes de apresentar o decorrer da acção, nunca da mesma maneira, impedindo assim a possibilidade do filme se tornar entediante. Colocado ao lado de outras anteriores propostas semelhantes, Searching consegue surpreender com reviravoltas inesperadas e apesar do final ser o esperado as voltas para lá chegar são interessantes e ajudam a criar um grande mistério. A mensagem principal fica claramente transmitida. Todos sabemos que Instagram, Facebook, Twitter, e outros tantos que tal, fazem cada vez mais com que a relações se tornem impessoais e menos calorosas, mas podem ser também uma importante ferramenta. Mistérios da nossa sociedade.

Classificação final: 4 estrelas em 5.