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domingo, 12 de abril de 2020

my (re)view: Sorry We Missed You . 2019

via empireonline.com
Ken Loach volta a dar-nos aquele doloroso murro no estômago. Depois do brilhante I, Daniel Blake (2016) em Sorry We Missed You estamos perante mais um drama social, bastante real e credível que nos desgasta e magoa a cada passo que damos rumo ao futuro de uma família de Newcastle que vive com dificuldades financeiras desde a crise de 2008. Ricky, pai de família com poucos estudos e muitas contas para pagar agarra a oportunidade de trabalhar por conta própria para uma empresa de distribuição de pequenas encomendas e mercadorias. Com dois filhos a estudar e a mulher Abbie a trabalhar como cuidadora de idosos, a vida desta família está longe de ser perfeita e a realidade do dia-a-dia é difícil de gerir. Loach tem o dom de nos fazer acreditar nestas histórias porque todas elas são uma realidade e a naturalidade como tudo se desenrola toca a qualquer um que perceba e compreenda as dificuldades de cada um, pois todos nós nos conseguimos identificar com eles em algum momento e sentir compaixão pelo que estão a viver. Tudo parece real, porque na realidade o cinema pode muito bem ser apenas o retrato fiel de muitas vidas. Ken Loach sabe fazer isso melhor que ninguém. Mais um excelente contributo seu para o cinema cujo retrato da realidade se encaixa perfeitamente numa ficção que tem muito, mas mesmo muito de verdadeira ora não estivéssemos todos os dias a lutar contra as consequências de outrora, com um futuro que nos obriga a saber lutar pelas coisas que precisamos para sobreviver.

Classificação final: 4/5 estrelas.

terça-feira, 31 de março de 2020

my (re)view: Birds of Prey (and the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn) . 2020

imagem via variety.com
Derivado a situação dificil que o mundo atravessa, Birds of Prey chega até nós mais depressa do que seria esperado, bem mais cedo até do que provavelmente saíria das salas de cinema. Não é que se pudesse esperar muito deste stand-alone, mas a verdade é que até superou aquilo que estava à espera. Muita da sua força e alegria advém da fantástica performance de Margot Robbie neste papel que é mais desafiante do que possa parecer numa personagem que mistura loucura e diversão mas com uma enorme componente emocional onde a abordagem da doença mental aparece de forma sublimilar. É Harley Quinn que narra a história que temporalmente se passa num cenário pós Suicide Squad (2016) onde a sua relação com Joker terminou e é hora de mostrar o que vale sozinha sem o rótulo de namorada do assassino mais louco de Gotham. Para sobreviver Quinn junta-se a um dos maiores vilões de Gotham, Roman Sionis (Ewan McGregor) mas as coisas descontrolam-se um pouco, ou não fosse ela assim mesmo. A loucura de Harley Quinn é absolutamente bem transportada para dentro deste filme, onde todo o ambiente louco nos remete para as caracteristicas desta personagem da DC Comics, onde a timeline é ela também diferente, as cenas de acção bem coreografadas e a banda sonora a condizer com os momentos. Fica a faltar apenas um background mais coeso das personagens secundárias e também uma maior solidez na narrativa contendo pormenores pouco desenvolvidos. Resta-nos apreciar a loucura de Harley Quinn fabulásticamente interpretada pela talentosíssima Margot Robbie. Podia ser melhor, mas caramba diverte muito!

Classificação: 3/5 estrelas.

terça-feira, 24 de março de 2020

my (re)view: The Invisible Man . 2020

imagem via time.com

É muito difícil surpreender dentro do género do terror hoje em dia, se bem que eu não inseria The Invisible Man propriamente dentro desse género. É mais um thriller de ficção cientifica com alguns sustos à mistura, mas que funciona muito melhor pela mensagem que quer passar do que pelas semalhanças que possa ter com mais um mero filme de terror como aparentemente nos possa parecer. Para quem vá à espera da habitual história de fantasmas e das suas vinganças para além da morte, enganem-se. The Invisible Man consegue ser bem sucedido tomando decisões inteligentes apesar de irmos facilmente ligando os pontos da história. Cecile vive atormentada há muitos anos, presa a uma relação abusiva com Adrian, um riquissimo cientista obssessivo, da qual ganhou finalmente coragem para se ver livre. Já em segurança em casa de um amigo e após saber que o ex-namorado se suicidou, Cecile nunca imaginaria que o seu tormento continuaria mesmo depois do desaparecimento de Adrian. Um filme que vive bastante de silencios e de movimentos lentos ou estáticos de camera que intimidam bastante. Tudo isto mais a fantástica performance de Elisabeth Moss que incorpora na perfeição todo o terror vivido por uma vitima de violência doméstica. Para além da parte ficcional, este é um filme cuja mensagem excede aquilo que a ficção quer mostrar e por isso mesmo Moss faz-nos ganhar um carinho muito especial pela personagem que sofre psicologicamente dia-a-dia e que transparece de forma angustiante todo esse tormento. O realizador Leigh Whannell já é experiente nestas andanças quer do terror quer do sci-fi, mas aqui encontramos uma obra que apesar de alguma previsibilidade vale muito a pena pela experiência e pela forma como mexe connosco utilizando técnicas muito boas para o fazer.

Classificação 4/5 estrelas.

sábado, 21 de março de 2020

my (re)view: Waves . 2019

imagem via empireonline.com
Reacção imediata: wow. Realista, envolvente, absolutamente honesto. Waves não se deixa levar pela forma bonita de encarar as coisas más na vida e mostra como tudo pode desabar de um dia para o outro. É nos contada a história de Tyler um jovem do secundário de uma familia afro-americana de classe média alta, cujos sonhos parecem ter tudo para se concretizar, mas as peças do seu dominó vão cair mais depressa do que ele pode imaginar. Começamos com um ritmo agradável, digno de romance dos tempos antigos, mas a medida que a história de desenvolve vamos escalando de intensidade e percebemos que alguma coisa não está bem como aparentemente parecia estar. A fúria e a raiva acumulada começa a transbordar naquilo que se revela uma experiência angustiante e de ansiedade, mas neste caso no bom sentido. Trey Edward Shults que realizou em 2017 o interessante It Comes At Night, explora aqui todo o tipo de sentimentos ao mesmo tempo que opta por uma estética bastante diferente que por si só também ela conta a história, assim como a sua banda sonora. Kelvin Harrison Jr. é a meu ver uma das jovens promessas de Hollywood, se já me tinha surpreendido em Luce aqui continua a mostrar ao mundo o quão grandioso pode ser. Sterling K. Brown e Taylor Rusell também impressionam bastante, digamos que numa segunda fase deste filme onde lidamos com as consequências duras da dita primeira. Podemos dividir o filme em duas partes, uma absolutamente desgastante e outra mais reconfortante, chegando ao fim com uma sensação de que acabamos de assistir a algo de extrema qualidade, qualidade essa a que a produtora A24 já nos habituou. Daqueles filmes que devia ter visto mais cedo e se o tivesse feito teria entrado no top dos favoritos do ano passado.

Classificação: 4,5/5 estrelas.

domingo, 15 de março de 2020

my (re)view: The Gentlemen . 2020

imagem via sfreporter.com
Guy Ritchie de volta à velha formula, melhor que nunca e 2020 no cinema começa agora!! Diverti-me como já não me divertia há algum tempo com twists and turns, humor mas também suspense com muito estilo gangster à mistura. Co-escrito e realizado por Guy Ritchie, The Gentlemen é totalmente dedicado à boa forma como o crime e o suspense se equilibram com a comédia e os diálogos virtuosos e inteligentes. Ritchie popularizou-se com Lock, Stock and Two Smoking Barrels (1998) e Snatch (2000) que viriam a ditar qual o estilo em que ele se sentiria mais a vontade para criar e o resultado deste seu novo filme é que ele continua a saber fazer bons filmes, apesar dos percalços dos últimos anos. A história é sólida, sobre o mundo dos lords da droga ao jeito british da coisa, mesmo quando o maior de todos eles é um americano desde quase sempre nas terras de sua majestade. O forte elenco faz um trabalho extraordinário, onde todos têm o seu destaque, onde nenhum personagem se sobrepõe ao outro e todos encontram a sua importância algures no enredo. Apesar do óptimo trabalho dos actores é de destacar a incrível interpretação de Hugh Grant e Colin Farrell que se distanciam do que habitualmente costumam fazer, principalmente Grant. The Gentlemen não só é tudo aquilo que podíamos esperar dele, é ainda mais. Nada melhor que ver Guy Ritchie a fazer um filme à Guy Ritchie.

Classificação final: 4,5/5 estrelas.

sexta-feira, 6 de março de 2020

my (re)view: Dark Waters . 2019

imagem via theguardian.com
Há muito que se explora no cinema as mais variadas teorias da conspiração e se denunciam graves situações. Todd Haynes já provou que consegue fazê-lo como ninguém. Dark Waters baseia-se no caso real do advogado Robert Billot e da batalha legal de vinte anos contra a empresa de químicos DuPont, acusada de fazer despejos tóxicos no estado do West Virgina ao longo de vários anos, pondo em causa a saúde da população e dos seus animais, chegando a causar varias mortes ao longo desses anos. Mark Ruffalo interpreta este advogado que decide ajudar um agricultor local na luta contra a gigante DuPont. Ruffalo, como belissimo actor que é, opta por um retrato frágil de uma postura bastante recatada demonstrando que com esforço e dedicação se consegue tudo, mesmo que seja contra alguém muito mais imponente que nós. Uma interpretação com uma componente física fundamental que significa muito. Vamos ficando aos poucos cada vez mais envolvidos no mistério deste thriller partilhando quase que do mesmo sentimento paranoico de Rufallo pela busca de respostas ao estilo dos bons clássicos de antigamente. Um filme que passou ao lado de muitos o ano passado e que merecia mais destaque, pela história, pelo protagonista mas a cima de tudo pelas escolhas inteligentes e criativas de Todd Haynes.

Classificação final: 4/5 estrelas.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

my (re)view: 1917 . 2019

Imagem via variety.com
Podemos sentir emoção em várias situações ou várias experiências na vida, mas podem ser tão boas as emoções reais, como aquelas que chegam até nós das mais variadas maneiras. 1917 é um todo de emoção. Uns queixam-se que há pouco sangue, outros que não demonstra a crueldade da guerra, mas se há obra difícil de concretizar com exito é um drama de guerra épico em plano sequencial - ou neste caso editado de forma brilhante para parecer isso mesmo! - que emociona a cada minuto. 1917, oitavo filme de Sam Mendes é uma homenagem ao seu avó e as memórias que trouxe da Primeira Grande Guerra, o trabalho mais pessoal do realizador britânico que já nos presenteou com outros grandes filmes como Jarhead (2005) ou Revolutionary Road (2008), desta vez eleva imenso a fasquia do que em qualquer dos seus outros filmes. Sendo este um filme bastante pessoal para Mendes, nota-se a paixão que colocou nele, com uma qualidade técnica de se tirar o chapéu, ainda mais quando o desafio era fazê-lo dando uma sensação presencial em tempo real acompanhando uma jornada dolorosa. Dá-nos uma sensação constante de ansiedade e emoção, seguindo os dois personagens principais, sentindo que estamos com eles durante todo aquele percurso. A premissa é bastante simples, mas muito eficaz e por vezes não são precisas histórias complexas para um filme nos encher as medidas. A mestria do cinematografo Roger Deakins faz com que tudo seja ainda mais belo, onde imagens valem mais que palavras. Um dos melhores filmes a nível técnico que já vimos nos últimos anos, talvez dos mais bem concretizados da década.

Classificação final: 5/5.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

my (re)view: Star Wars: The Rise of Skywalker . 2019

Imagem via imdb.com
As minhas expectativas para o suposto final da saga Star Wars não eram as maiores. Todos sabemos que a trilogia original com os episódios IV, V e VI é um grande marco no sci-fi e que os episódios I, II e III foram algo que podiamos passar bem sem eles, mas quando J. J. Abraams fez renascer mais uma vez a saga, com personagens novos e cheios de carisma no episódio VII havia esperança na continuação desta história. Rian Johnson agarrou com garra o episódio VIII, mas J. J. Abraams regressou à saga depois de Colin Trevorrow ter saído por divergências criativas com a Disney. Mau sinal, o alerta começou logo aí! Rey (Daisy Ridley) era uma belissíma protagonista e Finn (John Boyega) também tinha o lado aventureiro e destemido que a saga precisava, mas chegarmos ao final de mais um ciclo e constatar a falta de cuidado que houve pela história, pelos personagens e a quantidade de situações que não fazem sentido ou simplesmente surgem de forma patética é triste. Rey torna-se desinteressante e irritante, Finn não tem qualquer relevância e até Ben (Adam Driver) se tranforma naquilo que todos os vilões mais temem, quando o verdadeiro vilão Palpatine revolve renascer com um plano maquiavélico quase que inventado à pressão. Estes filmes são feito a cima de tudo para passarmos uma boa experiência de cinema, quer a nível visual quer a nível de história, mas o poder narrativo é tão fraco e pouco esforçado que os caminhos mais fáceis e desinteressantes que podiam existir foram utilizados. Quando tudo tenta ser demasiado perfeitinho, deixa de surpreender e se era suposto ser empolgante falha no entusiasmo, com desilusão atrás de desilusão pelas escolhas correctas demais que optou por tomar. Um final nada glorioso, de uma saga que apesar disso continuará a fazer sonhar gerações e gerações.

Classificação final: 2/5 estrelas.

domingo, 8 de dezembro de 2019

my (re)view: Marriage Story . 2019

Imagem via variety.com
Pode dizer-se que Marriage Story é um filme bastante denso. Denso nos sentimentos, denso nas palavras, denso naquilo que significa ser feliz e valorizado quando colocamos o amor e a felicidade de outros em primeiro lugar numa relação, e deixamos para trás o nosso bem estar emocional. Noah Baumbach (Frances Ha 2012) escreve e realiza de forma crua, verdadeira mas também divertida aquilo que podiam ser situações perfeitamente normais entre um casal à beira da ruptura e com naturalidade percebemos cada um dos lados e identificamo-nos com algumas situações. Existem momentos de uma intensidade tamanha que elevam este filme a muito mais do que uma história sobre um divórcio. Esses momentos transmitem dor e sofrimento e é impossível não ficarmos tristes e abalados com o que estamos a ver. Os diálogos entre personagens são perfeitamente credíveis e espontâneos, cheios de raiva e angústia mas também cheios de amor e tudo se sente como verdadeiro, pois esta podia ser a história de cada um de nós ou de qualquer outra pessoa que já conhecemos na nossa vida. Scarlett Johansson tem a meu ver a melhor performance da sua carreira e Adam Driver mostra mais uma vez porque é dos melhores actores da actualidade e quem diria que química entre os dois resultaria tão bem. Chegamos ao fim de Marriage Story completamente de rastos depois de termos levado uns quantos murros no estômago. A beleza da sua honestidade tocará a todos disso tenho a certeza.

Classificação final: 4,5/5.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

my (re)view: The Irishman . 2019

imagem via bostonhassle.com
A maneira como vemos e apreciamos um filme vai mudando consoante o nosso gosto, mas acima de tudo vai acompanhando o nosso crescimento intelectual. Com Martin Scorsese aprendi que o meu gosto por cinema tinha um grande impacto na minha vida. Talvez sem os filmes dele e o que significavam para mim nunca me teria apercebido disso. Quando me perguntam qual é o meu género preferido de filme, digo imediatamente “gangster” e isso deve-se à forma magistral como Scorsese introduziu esta vertente no cinema. Mas vamos focar-nos no que interessa, The Irishman - o meu filme mais aguardado do ano, com um elenco de luxo, o tema do costume com os suspeitos do costume. E tal como o crescimento que falava anteriormente, este é um outro nível Scorsese, com a maturidade que todos estes bosses precisavam e só um homem podia fazer. Nunca me senti tão triste a ver um filme deste género e não digo isto de forma depreciativa. Essa tristeza vai aumentando até ficarmos totalmente desgastados, destroçados e é incrível evidenciar a eficácia com que isso se sente. De novo, o rise and fall de um outcast com muita sorte e o quanto o peso dessa sorte pode transformar-se num enorme vazio. Sente se uma melancolia cada vez maior e existe uma tensão crescente que só Thelma Schoonmaker sabe impecavelmente criar com a sua estratégica e detalhada edição. Ao contrário do ritmo energético de Goodfellas (1990) e Casino (1995), Martin Scorsese foca-se apenas nas relações entre um triângulo de amizades com ligações à máfia e das consequências das acções através de uma abordagem mais específica, pesada e madura. Frank Sheeran (Robert De Niro) conhecido como "the irishman" dedicou a sua vida a cumprir ordens de outros, deixando para trás o papel de homem comum na sociedade. Quando este passa de condutor de pesados a assassino contratado pelo chefe mafioso Russel Bufalino (Joe Pesci), vai ganhando a sua confiança demonstrando lealdade ao longo de décadas, vindo a ser mais tarde a sua amizade com Jimmy Hoffa (Al Pacino) a chave para o que Frank tinha de mais parecido com uma vida normal. Scorsese sempre foi um bom comandante e cada vez mais prova que é mestre da perfeição. A firmeza e intensidade entre actores é tão poderosa, não só graças aos dotes de interpretações destes gigantes como do argumento onde o desenvolvimento de personagens só podia ser bem conseguido pelo facto do filme nos dar esse tempo necessário para os podermos compreender. Cada etapa e cada decisão fica mais descomplicada de perceber assim que vamos conhecendo melhor os protagonistas e a pureza da sua amizade. The Irishman acaba por não ser só um filme de gangsters, é também a história de um homem cujas escolhas mais importantes da vida foram trocadas por momentos de poder e promessas que no final não restaram. Nos dias de hoje parece que é cada vez mais difícil agradar a todos, mas caramba, quem não concordar com a beleza cinematográfica que isto é não sei em que mundo vive.

Classificação final: 5/5.

domingo, 1 de dezembro de 2019

my (re)view: Luce . 2019

imagem via thespool.net
Vivemos num mundo onde inconscientemente nos julgamos uns aos outros todos os dias, tentando adivinhar o que cada um pensa ou sente quando confrontamos com situações mais delicadas. O melhor de Luce é dar importância a isso mesmo. Durante o filme observamos o jovem Luce (Kelvin Harrison Jr.) a ser questionado e julgado por professores, amigos e família quer sejam essas afirmações sobre as suas acções verdadeiras ou falsas. Pensamos constantemente se os seus sentimentos e atitudes serão sinceros ou produto de uma mente que vê o mundo ao seu redor a fazer lhe imposições sobre a maneira como tem que se comportar, falar e até pensar. E é por isso mesmo que este filme se transforma num retrato tão bom do que a sociedade se está a tornar e da forma como a opinião da sociedade deve ou não influenciar a nossa maneira de estar. Não percebemos bem quem são os heróis ou quem são os vilões quando na verdade somos por vezes moldados aos olhos de outros para agradar a uma maioria. O filme tem um papel muito importante na questão interacial assim como social passando por temas sensíveis da actualidade. É também um filme de excelentes actuações com veteranos como Naomi Watts, Tim Roth e Octavia Spencer a brilhar ao lado da maior estrela deste filme de seu nome Kelvin Harrison Jr. o novato que mostra estar à altura de todos os outros. Luce podia ser só mais uma história sobre um adolescente conturbado, mas eleva-se pelo suspense e forma como mexe connosco emocionalmente. Bem escrito, bem montado, com grandes interpretações e óptima banda sonora, Luce é daqueles filmes que se transformam em experiências cinematográficas que permanecem connosco depois de acabarem.

Classificação final: 4,5/5.

domingo, 24 de novembro de 2019

my (re)view: Le Mans '66: O Duelo (Ford v Ferrari) . 2019


Grande parte dos realizadores, não conseguem ser bem sucedidos quando toca a filmes relacionados com o automobilismo. É preciso excelência a nível técnico e sonoro para a experiência ser completa. James Mangold (Logan, 2017) consegue tudo isso e muito mais neste Le Mans 66 onde as sequências de corrida são emocionantes, transportando-nos para dentro dos carros tal não é a adrenalina dessas cenas. Esta é a história verídica, sobre a disputa entre a Ferrari e a Ford, quando a última decidiu apostar na Formula 1. Para que isso acontecesse, uma equipa de engenheiros ao comando do ex-piloto, agora vendedor de carros desportivos Carroll Shelby (Matt Damon) são contratados por Henri Ford II (Tracy Letts) para construir um Ford GT40 com o potencial de derrotar a grandiosa Ferrari na corrida 24 Horas de Le Mans em França, com o destemido Ken Milles (Christian Bale) ao volante. Apesar do modelo de narrativa ser usual, os personagens são a chave do interesse e afectividade que criamos por esta história. Christian Bale é um actor notável e tudo o que faz, faz sempre bem. Matt Damon também funciona muito bem aqui e os dois têm uma química incrível que nos faz acreditar na natureza daquela amizade. O filme não nos engana nem uma única vez e sabemos bem com aquilo que contar. Há sempre a tendência nestas histórias de resiliência e disputa, de tornar tudo demasiado sentimental e piegas para apelar à lágrima fácil e também existem desses momentos aqui, no entanto a qualidade de todos os outros aspectos fazem com que isso seja um problema menor. Para além de divertido, é emocionante e deixa na cara aquele sorriso no rosto que qualquer feel good movie sabe deixar.

Classificação final: 4/5.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

my (re)view: Um Dia de Chuva em Nova Iorque (A Rainy Day in New York) . 2019


A cada ano que passa as polémicas em torno da vida privada de Woody Allen aumentam, mas isso não parece demovê-lo da vontade de querer continuar a fazer filmes. A Rainy Day in New York viu a sua estreia banida de vários cinemas pelo mundo, nomeadamente nos Estados Unidos, onde não foi exibido em nenhuma sala. Em Portugal, Allen continua a ter um público bastante fiel, e boa receita de bilheteira com mais uma destas suas cartas de amor à cidade que tanto idolatra como sendo a melhor e mais interessante cidade do mundo, Nova Iorque. Já são várias as provas de que Allen é fiel aos seus conceitos e temas, não existindo aqui nada de novo no que toca ao material de escrita, notando-se uma certa repetição, repetição essa que se afirma claramente como opção e não falta de criatividade. Quer sejam os temas recorrentes ou não, o encanto nova-ioquino está sempre lá, assim como as dúvidas existenciais e problemas amorosos dos personagens principais. Timothée Chalamet é actualmente um dos jovens promissores mais interessantes da indústria, incorporando na perfeição o típico personagem dos filmes de Allen, neurótico e inseguro cuja namorada Ellen Fanning, se deslumbra por um realizador e um argumentista de cinema para um projecto jornalístico da faculdade. Uma viagem divertida e descontraída pela Nova Iorque boémia e artística onde Allen aproveita para criticar um pouco a indústria cinematográfica, gozar consigo mesmo e até fazer umas ligeiras provocações. Estamos assim perante mais um filme feito para os fãs de Woody Allen, aqueles que compreenderam melhor como um dia de chuva em Nova Iorque pode ser bastante especial.

Classificação final: 3,5/5.

domingo, 13 de outubro de 2019

my (re)view: Joker . 2019


Diziam as profecias de internet que estava a chegar o filme do ano. O falatório começou a ser grande e as expectativas tendiam a crescer. Todd Phillips nunca me caiu bem no goto, mas quando todos remam para a mesma direcção alguma coisa queria dizer. Só que não! Que grande desilusão. Joker foi nos vendido como o "filme baseado em BD mas que não tem nada a ver com os filmes baseados em BD". O tempo passa e passa e Todd Phillips tenta desesperadamente enganar a nossa mente levando-nos a acreditar que estamos a ver algo inédito, mas não estamos. O fraco argumento, a falta de originalidade e a abordagem acerca daquilo que é a doença mental já foi anteriormente muito melhor explorada. A verdade é que Joker não mostra nada de novo e quando muitos o comparam a Taxi Driver ou The King of Comedy é estar a comparar grandes feitos cinematográficos a um filme banal cuja profundidade dada ao personagem Arthur Fleck/Joker não é assim tão complexa nem tanto quanto desejada. O casting errado e tinha sido um flop total. Este filme devia antes chamar-se: Joaquin Phoenix. Ele é a alma de toda a banalidade de argumento que assistimos do inicio ao fim, o brilho e a magnitude transborda e é ele que faz com que o personagem se eleve, transformando-o em alguém com importância, que perturba e sentimos compaixão por si. Acho que por isso mesmo se confundem um bocado os aspectos acerca de se estamos perante um bom filme, pois nem todos têm a capacidade de fazer aquilo que Phoenix fez, mas por mais que ele esteja divinal é impossível ver Joker como a obra-prima que o pintam. Há dois momentos neste filme que definem a importância de existirem actores como Phoenix neste mundo: a primeira vez que o vemos a rir descontroladamente e uma dança que será certamente das melhores cenas a recordar destes anos 10's. Sobre as comparações que têm sido feitos com Heath Ledger nem sequer vou falar, pois acho que são dois tipos de abordagem completamente diferentes. A vontade de transformar isto em "algo mais que um filme de super-heróis" acaba só mesmo por ser isso, uma vontade (nem o Bruce Wayne se safa!). Fizeram-me acreditar que estava à espera de alguma coisa inovadora e isso irritou-me muito. O tempo continuava a passar e nada de relevante acontecia. Já para não falar da pseudo crítica social, utilizando um talk show para a demonstrar, metendo o Robert De Niro ao barulho podia ser que até colasse. É uma pena que o potencial de grandes actores seja desperdiçado em troca de modas que levam grandes massas ao cinema. Obrigada ao Joaquin Phoenix por transformar todo este prato típico em algo mais gourmet. Ele sim merece todos os aplausos do mundo.

Classificação: 3/5.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

my (re)view: A Herdade . 2019


Enganem-se aqueles que pensam que o cinema português não está à altura do que se faz no estrangeiro. Enganem-se aqueles que acreditam que todos os filmes do nosso país são de fraca qualidade. Quando falamos de A Herdade, enganem-se aqueles que estão à espera de mais um filme que deixa a desejar. O que se faz por cá tem vindo a melhorar e bastante, basta só começarmos a prestar mais atenção. Uma história bem portuguesa, onde as raízes da nossa cultura estão à superfície num contexto histórico e político de um Portugal não muito longínquo. Passando por várias décadas dos anos 40 aos 90, acompanhamos os vários elementos da família Fernandes e daqueles que para ela trabalham, numa das maiores herdades do Alentejo ao comando de Miguel Fernandes impecavelmente interpretado por Albano Jerónimo ou não fosse ele um dos melhores actores que temos neste país. Todos os momentos de Albano Jerónimo no ecrã são poderosos, como que hipnotizantes, demonstrando o poder do seu personagem e daquilo que ele representa nesta história. Sandra Faleiro é grandiosa também. A primeira metade do filme é sublime, bem conseguida e equilibrada em todos os aspectos. A segunda metade peca um pouco pela repetição caindo em demasia no melodrama, tornando-se mais banal do que eu gostaria, redimindo-se num último acto que recupera o poder e a importância central de toda a narrativa. Tiago Guedes consegue aqui através de uma realização ambiciosa, planos belíssimos, iluminação perfeita, banda sonora curta mas esplêndida e a cinematografia deslumbrante de João Lança Morais, uma mística e um magnetismo forte que nos envolve durante quase três horas de duração sem darmos pelo tempo passar. Não é um filme perfeito, mas diz muito sobre aquilo que fomos e continuamos a ser como nação. Por vezes silêncios tem mais poder do que as palavras e os segredos não são eternos.

Classificação final: 3,5/5.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

my (re)view: Midsommar . 2019


De tempos a tempos aparece aquele em um milhão que marca realmente a diferença. Não é aquele que é adorado por todos, mas é aquele que com um jeito único faz a magia do cinema acontecer. Ari Aster é desses um em um milhão e nesta nova vaga do horror, e no meio deste momento de originalidade dentro do género nos últimos anos, são os filmes de Aster aqueles que mais se destacam. E antes de Midsommar não são muitos, é apenas um na verdade, a sua primeira longa metragem, Hereditary do ano passado, que fez com que o mundo começasse a falar dele como se de há muitos anos o conhecêssemos. Também argumentista dos seus filmes, Ari Aster continua a conjugar longos planos pela beleza da cinematografia com inúmeras influências de alguns dos seus realizadores favoritos, misturando uma banda sonora que nos envolve totalmente na história e momentos que mexem connosco física e psicologicamente. Fê-lo em Hereditary, fá-lo novamente em Midsommar. A história da relação entre Dani e Christian que na tentativa de a resgatar, viajam para a Suécia a convite de uns amigos para festejar as celebrações de solestício de verão. O que aparentemente seriam umas férias descontraídas acaba por se ir revelando numa experiência cada vez mais estranha e perturbadora. A dor da perda é novamente abordada por Aster de uma forma tão incomoda que se torna verdadeira e esquecemos que estamos a ver um filme. Quem diria que o horror às claras podia ser assim tão perturbador? Ficamos claramente a pensar sobre o que vimos durante dias e algumas teorias se levantam. Um dos aspectos mais curiosos do filme é como o humor negro resulta super bem no meio de toda a sua estranheza e de como o equilíbrio entre esses momentos e os mais tensos acontece. Fica também a menção à fabulosa Florence Pugh, a actriz revelação do momento a quem devemos claramente continuar de olho. Depois da visualização do filme Ari Aster convidado especial da 13ª Edição do Motelx (qual tive a alegria de estar presente) partilhou algumas curiosidades sobre a história e produção o que tornou toda a experiência ainda mais interessante. Fica a água na boca para a versão directors cut com cenas que não puderam ser incluídas na versão theatrical do filme. É um forte candidato a meu filme favorito do ano e só não me pronuncio mais fortemente a cerca disso, porque um senhor chamado Scorsese tem este ano algo para nos mostrar.

Classificação final: 5/5.

sábado, 14 de setembro de 2019

my (re)view: Swallow . 2019


Suscitou a minha curiosidade depois de algumas críticas que li aquando da sua passagem pelo Sundance Film Festival no início desde ano e quando vi que Swallow faria parte do cartaz do Motelx, não queria perder a oportunidade de o ver. Conta a história bizarra de uma mulher de classe alta que de repente sente uma enorme compulsividade em ingerir os mais variados objectos. Na verdade, toda a estética meio vintage meio avantgarde é aquilo que salta mais a vista. Planos bem filmados, atenção ao detalhe nos cenários, cinematografia absolutamente incrível. Destaca-se também a brilhante e dolorosa (no bom sentido) performance de Haley Bennett que só não envolve mais devido ao insignificante poder de um argumento que podia ter arriscado mais, quer em diálogos quer em storytelling. O desenvolvimento de personagens é muito fraco e fiquei sem saber se o ridículo de algumas situações eram propositadas ou apenas fruto de uma má escrita. Numa história onde o principal é sabermos o porquê de uma compulsão, o filme obriga-nos sempre a focar-nos na vida luxuosa mas triste e vazia que a protagonista enfrenta, tendo sempre mais necessidade de mostrar a vida da dona de casa desesperada do que provocar o espectador ou causar-lhe algum tipo de sentimento perante o desespero daquela mulher cuja estranha vontade acaba por ter um porquê, que quando revelado não causa o impacto devido. Perdemos demasiado tempo com os clichés da família abastada tipicamente americana, quando se queria ver mais a parte psicológica e invulgar da questão.

Classificação final: 2,5/5.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

my (re)view: Ma . 2019


Depois de The Help e The Girl on the Train assim continua Tate Taylor pelos mais variados contos sobre donas de casa, que só não digo desesperadas para não ser pouco original tal como este seu filme, do qual nem percebemos bem a intenção. Ma conta a história de uma mulher de meia idade, aparentemente inofensiva, que se presta a ajudar um grupo de adolescentes comprando-lhes alcool, dando festas sem regras na sua casa, com o objectivo de se tornar amiga deles. Se existem momentos grotescos e de alguma violência a nível visual, também existem aqueles em que o tom do filme foge para a comédia e algumas coisas deixam de fazer sentido. A falta de originalidade acaba por o prejudicar e nem as capacidades de interpretação de Octavia Spencer, que tenta dar o seu melhor, safam o filme na generalidade. Ma aborda alguns dos temas mais relevantes sobre a adolescência, como o bullying, no entanto não os sabe aproveitar da melhor maneira e é também essa mistura mal estruturada que faz com que a narrativa se torne previsivel o que para mim acabou por ser aborrecido. Pouco mais se aproveita deste filme sem ser o desempenho de Spencer que se revela uma óptima e assustadora psicopata. Já a nível de realização pouco ou nada há a destacar. É mais um daqueles casos em que o potencial era bem maior do que foi concretizado.

Classificação final: 2,5/5.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

my (re)view: Variações . 2019


Génios são aqueles que sem sabermos explicar bem porquê tocam pela sua autenticidade e por marcarem a diferença. António Ribeiro, partiu cedo demais, antes de saber que o seu maior desejo se tornara realidade e que as suas músicas viriam a perdurar até aos dias de hoje sendo sinónimo de originalidade e da portugalidade do fado que foi viver com o sofrimento de perseguir um sonho. Mais que um biopic musical, Variações é a homenagem mais que merecida a um artista de excelência, cujo significado das suas músicas nunca passaram de moda e tanto dizem a muitos de nós. Sérgio Praia tem uma entrega e paixão notórias que emocionam várias vezes ao longo do filme, mergulhando nesta figura melancólica e peculiar que continua bem vivo. Essa sua entrega é tão bonita e tão incrível de se ver que para além de simbolizar a enorme força da natureza que era António faz-nos perceber melhor a mente do artista. Apesar de alguns saltos temporais um pouco desajustados e do final apressado, é de muitos momentos especiais e marcantes que se faz este filme, que vive não só e obviamente da banda sonora, mas também de uma belíssima cinematografia e daquilo que o realizador João Maia decidiu contar para retratar o mais significativo sobre a vida de António. É de muito sentimento que vive este filme e é difícil não ficar rendido aos encantos de Variações, a pessoa e o filme. Afinal de contas sempre fomos nós que nos adaptamos a ele e não ele a nós.

Classificação final: 4,5/5

domingo, 21 de julho de 2019

my (re)view: O Rei Leão (The Lion King) . 2019


Um dos mais adorados clássicos da Walt Disney Animation Studios volta ao grande ecrã da maneira mais improvável possível. A animação passa a ser real, ou melhor a parecer real e o mundo está a ter opiniões bastante diferenciadas, na sua maioria bastante negativas. Como grande fã do clássico de 1994, tendo o original feito parte daquilo que são memórias da minha infância não me importei nada com esta nova versão. Não é suposto o impacto ser o mesmo (e isso eu já sabia) o que importa é o cuidado e a espectacularidade e respeito com que esta história foi mais uma vez contada pelas mãos de John Favreau que já tinha feito um excelente trabalho, no live-action de Mowgli n'O Livro da Selva em 2016. Mal (ou bem) comparado que seja parece que estamos a assistir a um episódio do National Geographic tal não é a beleza visual que o filme nos apresenta. Os animais e os cenários estão tão bem conseguidos que por vezes dá para esquecer que tudo o que estamos a ver foi criado num pano verde! A importância de O Rei Leão passa muito por aquilo que transmite representando a grande viragem no cinema de animação no que toca ao conteúdo e quanto a isso aqui bate tudo certo e são poucas as partes que não foram contadas exactamente da mesma forma, mas penso que do que se poderá sentir mais falta são das partes mais "abonecadas" que aqui foram transformadas em acções e gestos de natureza animal. Mas se a ideia era dar uma roupagem real, isso faz todo o sentido. O impacto não é definitivamente o mesmo, mas a nostalgia faz realmente maravilhas. Não poderia terminar este texto sem mencionar os momentos magníficos que Timon e Pumba proporcionam. Afinal de contas eles sempre foram os meus preferido e aqui continuam a ser. Apesar de não conseguir ser a surpresa que foi da primeira vez (nunca poderia ser), considero que mais bonita homenagem não podia ter sido feita. Não percebo o porquê de tanto ódio.

Classificação final: 3,5/5